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20 de Janeiro de 2022
2º Grau
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Detalhes da Jurisprudência
Órgão Julgador
3ª Turma Cível
Publicação
Publicado no DJE : 01/02/2011 . Pág.: 112
Julgamento
12 de Janeiro de 2011
Relator
MARIO-ZAM BELMIRO
Documentos anexos
Inteiro TeorTJ-DF__20060110445799_6be25.doc
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Inteiro Teor

474415

P. J. – Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios

Gabinete da Desembargadora NÍDIA CORRÊA LIMA

18.

474415

Gabinete da Desembargadora Nídia Corrêa Lima

Órgão

:

FORMDROPDOWN

Classe

:

FORMDROPDOWN

Num. Processo

:

2006.01.1.044579-9

FORMDROPDOWN

:

MINISTÉRIO PÚBLICO DO DISTRITO FEDERAL E TERRITÓRIOS

FORMDROPDOWN

:

DISTRITO FEDERAL

Relator Des.

:

mário-zam belmiro

Relatora desig. Desª

:

nídia corrêa lima

E m e n t a

AÇÃO CIVIL PÚBLICA. TERMO DE ACORDO DE REGIME ESPECIAL - TARE. LEGITIMIDADE ATIVA DO MINISTÉRIO PÚBLICO. TERMO DE ACORDO DE REGIME ESPECIAL - TARE. ILEGALIDADE.

1. A Constituição Federal prevê a legitimidade do Ministério Público para a defesa do patrimônio público, cuja lesão também se vislumbra no caso dos autos, porquanto se discute a existência de prejuízo ao erário.

2. A instituição do TARE padece de ilegalidade, não podendo o Distrito Federal facultar ao contribuinte a opção de abater percentual fixo de ICMS, cobrado nas operações e prestações anteriores, e realizar o ajuste do valor devido com base na escrituração regular somente ao final do período.

3. A apuração do ICMS, na forma proposta pelo TARE, constitui um benefício que prejudica os demais entes federados, uma vez que há concessão de crédito presumido à empresa ré, sem que tenha sido celebrado convênio entre o Distrito Federal e os demais Estados, conforme prevê a Lei Complementar 24/75.

4. Apelação conhecida e provida.

A c ó r d ã o

Acordam os senhores Desembargadores da (o) FORMDROPDOWN do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios, Mário-Zam Belmiro Rosa - Relator, FORMDROPDOWN - FORMDROPDOWN e FORMDROPDOWN - Vogal, sob a presidência do (a) Desembargador (a) NÍDIA CORRÊA LIMA em CONHECER, REJEITAR A PRELIMINAR DE ILEGITIMIDADE ATIVA DO MINISTÉRIO PÚBLICO E DAR PROVIMENTO À APELAÇÃO, de acordo com a ata do julgamento e notas taquigráficas.

Brasília-DF, 12/01/2011.

Desembargadora Nídia Corrêa Lima

Relatora

R E L A T Ó R I O

Cuida-se de recurso de apelação (fls. 371/390) interposto de sentença (fls. 362/368) prolatada pelo MM. Juiz de Direito da 6ª Vara da Fazenda Pública do Distrito Federal, que, em face do reconhecimento da ilegitimidade ativa do Ministério Público do Distrito Federal, julgou extinto o processo, na forma do art. 267, inc. VI, do Código de Processo Civil.

Irresignado, apela o MPDFT, asseverando a sua legitimidade para a propositura da presente ação. Requer o provimento do recurso, a fim de que, superada a preliminar, seja julgada procedente a ação, em vista dos prejuízos decorrentes da celebração do TARE.

O Distrito Federal apresentou contrarrazões, pugnado pelo desprovimento do apelo do Parquet (fls. 396/408).

A douta Procuradoria de Justiça ofertou parecer manifestando-se pelo provimento do recurso, inclusive quanto ao mérito (fls. 418/429).

Mediante a decisão de fl. 431 determinei o sobrestamento do feito, em atendimento à determinação do Supremo Tribunal Federal, o qual, apreciando questão de ordem no RE 576155, reconhecera a repercussão geral da matéria.

A Secretaria expediu certidão (fl. 438) informando acerca do julgamento do referido recurso extraordinário, levado a efeito em 12 de agosto do corrente, ao qual foi dado provimento, para, em caráter de repercussão geral, assentar a legitimidade do MPDFT para a propositura das referidas ações civis públicas. Na sequência, fez-se conclusão dos presentes autos, até então sobrestados, a este Relator.

É o relatório.

V O T O S

O senhor Desembargador Mário-Zam Belmiro – Relator

Conheço do recurso, presentes os pressupostos que autorizam a sua admissibilidade.

A discussão recursal diz respeito ao denominado Termo de Acordo de Regime Especial (TARE) – instituído em âmbito local pela Lei n. 2.381/99 que alterou o artigo 37 da Lei n. 1.245/96 (regulamento do ICMS no DF) – firmado entre o Distrito Federale JOSECAR DISTRIBUIDORA DE AUTO PEÇAS LTDA. (TARE nº 27/2002), que, em síntese, possibilitou ao contribuinte abater o percentual fixo do ICMS nas operações e prestações anteriores, com um ajuste ao final do período, com base na escrituração fornecida por aquele.

O tema foi alvo de inúmeras controvérsias no âmbito deste Tribunal, sobretudo em face da divergência de posicionamento acerca da legitimidade do Ministério Público para propor a presente ação civil pública.

A despeito da celeuma, o excelso Supremo Tribunal Federal, em rota de colisão com o entendimento sufragado no colendo Superior Tribunal de Justiça, acabou por pacificar o tema, mediante o reconhecimento da repercussão geral, tendo restado proclamada a legitimidade do Parquet para ajuizar ações desse jaez, conforme se verifica do acórdão paradigma, da lavra do eminente Ministro Ricardo Levandowski, nos autos do RE 576155, do qual se extrai o seguinte excerto:

“Não vejo, assim, concessa venia , como aplicar-se à espécie o parágrafo único do art. 1º da Lei 7.347/1985, que veda a propositura de ações civis públicas, pelo MP, para veicular pretensões relativas a matéria tributária individualizáveis. Isso porque a ação civil pública não foi ajuizada para proteger direito de determinado contribuinte, mas para defender o interesse mais amplo de todos os cidadãos do Distrito Federal, no que respeita à integridade do erário e à higidez do processo de arrecadação tributária, que apresenta, a meu ver, natureza manifestamente metaindividual.”

Por oportuna, confira-se a ementa do referido RE:

“Ação civil pública. Ministério Público. Legitimidade. Débito Tributário. Detrimento do patrimônio público e da ordem tributária. Legitimidade do Ministério Público para propor ação civil pública para questionar acordo realizado entre a Fazenda Pública e o contribuinte para pagamento de dívida tributária. Art. 129, incs. III e IX, da Constituição da República.”

Como se vê, a questão acerca da legitimidade do MP restou definitivamente suplantada.

Também no que atine a eventual prejudicialidade decorrente do julgamento da ADIn 2440, em trâmite no Supremo Tribunal Federal, convém ressaltar que a referida ação foi julgada prejudicada por perda superveniente do objeto, ante a revogação dos atos normativos impugnados, consoante decisão da lavra do eminente Ministro Ricardo Lewandowski, proferida em 17.3.2008.

Desse modo, e considerando o longo lapso desde a propositura da ação, imperioso o julgamento de mérito, conforme faculta a regra constante do § 3º do art. 515 do Código de Processo Civil.

Entretanto, para melhor elucidação do tema, permito-me tecer algumas considerações.

Convém esclarecer que, a despeito do reconhecimento da repercussão geral no que atine à legitimidade do MP, quanto ao mérito, não há nenhum efeito vinculativo a demandar soluções homogêneas pelos órgãos do Poder Judiciário.

Com efeito, o Conselho Especial deste Tribunal, instado a se manifestar acerca da arguição de inconstitucionalidade da mencionada Lei distrital, não conheceu do incidente (AIL 20090020156466, Relator LECIR MANOEL DA LUZ, Conselho Especial, julgado em 13/04/2010), por força da vedação constante do art. 481, parágrafo único, do Código de Processo Civil, diante da apreciação do tema pelo Plenário do Supremo Tribunal Federal.

Na ocasião, o eminente Relator, Desembargador Lecir Manoel da Luz, fez menção a precedente do STF em que restou assentado: “a concessão unilateral de benefícios fiscais relativos ao ICMS, sem a prévia celebração de convênio intergovernamental, nos termos do que dispõe a LC 24/75, afronta ao disposto no artigo 155, § 2º, XII, g, da CF”.

Essa foi a conclusão adotada no julgamento da ADI 3809/ES, na qual o Governador do Estado do Espírito Santo questionava a constitucionalidade da Lei 8.366/2006 daquele Estado-membro. E, ainda que se invoque outros precedentes daquela Corte é certo que tais decisões não têm força vinculante a ponto de impor aos demais órgãos do Judiciário tratamento uniforme da matéria.

É que, a despeito da eficácia erga omnes e do efeito vinculante das decisões definitivas de mérito proferidas pelo STF nas ações constitucionais (direta de inconstitucionalidade e declaratória de constitucionalidade), ex vi do § 2º da CF – e aqui não é demais lembrar – restou declarada a inconstitucionalidade de lei outra que não a ora atacada pelo órgão Ministerial mediante a presente ação civil pública.

De fato, apesar da similitude dos temas vertidos nos mencionados normativos – Lei Distrital 2.381/99 e Lei estadual nº 8.366/06 (do Espírito Santo) – ambas regulam situações distintas, eis que aquela é restrita à concessão de incentivos fiscais às empresas atacadistas do DF enquanto esta estabelece benesses tributárias para as empresas que contratarem apenados e egressos no Estado capixaba.

Feitos esses esclarecimentos, passo a enfrentar o mérito.

No caso específico dos autos, mormente considerando o longo lapso de tempo decorrido, tenho que a solução da controvérsia demanda análise mais aprofundada, perquirindo-se acerca de efetivo prejuízo decorrente da celebração do termo de acordo de que se cuida.

Efetivo sim, e faço questão de frisar, pois, data venia dos que pensam de modo diverso, a alegação de que a Lei distrital 2.381/99, por inobservância dos ditames da Lei Complementar 87/96, acabou por gerar crédito presumido e, portanto, prejuízo para os cofres públicos, não se presta à solução da controvérsia, ao menos em compasso com os preceitos da efetividade da jurisdição.

Com efeito, da análise detida que fiz dos autos, verifiquei que não há nenhuma prova de prejuízo à coletividade ou ao erário distrital, eis que o simples fato de concessão pelo Poder Público de benefícios fiscais a determinadas pessoas jurídicas não leva à conclusão de que tal proceder redundaria em prejuízos ao patrimônio público ou em danos à sociedade.

Nesse ponto, vale ressaltar, o próprio ente distrital afirma a inexistência de prejuízos, antes indica uma série de benefícios gerados a partir do termo de acordo que se visa combater. Confira-se:

“Ora, são inegáveis os problemas enfrentados por todos os entes da Federação, especialmente o desemprego e a falta de recursos. O regime especial de apuração aqui impugnado é uma forma legal e legítima de equacionar essas dificuldades. É uma solução que – a realidade o demonstra – vem dando resultados bastante positivos.

Com efeito, desde a implantação da sistemática de regime especial de apuração do ICMS, em julho de 1999, já foram gerados milhares de empregos diretos. A empresa que opta pelo regime se obriga a garantir esses postos de trabalho. Outros milhares de empregos indiretos decorrentes do efeito multiplicador e da dinâmica da cadeia produtiva foram igualmente criados.

Demais disso, os gráficos que ora se junta demonstram de forma incontroversa que, diferentemente do alegado pelo apelante, houve um verdadeiro aumento de arrecadação de ICMS após a implantação do regime especial de apuração.” (fl. 404)

Realmente, a concessão de benefícios fiscais tem por objetivo a atração de empresas, as quais, se instaladas na unidade federativa que concede os incentivos, possibilitam o crescimento econômico da região, gerando empregos e riquezas e, em conseqüência, maior fluxo de bens e serviços, novos fatos geradores de tributos.

Daí não se pode, apenas com base na alegação genérica de que a sociedade está a experimentar prejuízos em decorrência da renúncia ou isenção fiscal, sem prova concreta dos danos, afastar a aplicação da Lei e declarar nulo o termo de acordo, com a condenação da empresa ré a recolher o ICMS.

Não resta demonstrado nos autos, também, que o IPVA, IPTU e TLP, dentre outros, estão sendo reajustados a maior e que tais reajustes estão sendo feitos em decorrência do acordo mencionado nos autos, conforme se ventilou.

De igual modo, não há qualquer elemento nos autos que permita inferir que não houve demonstração de que a renúncia de receita foi desconsiderada na Lei Orçamentária Anual, ou mesmo que o aludido acordo afetará as metas previstas na Lei de Diretrizes Orçamentárias – LDO.

Ora, não se pode, apenas com mera preocupação formalista, sob o singelo argumento de violação de Lei, presumir a ocorrência de prejuízo ao Erário e à comunidade e, sem provas concretas, declarar-se a nulidade do acordo, com a condenação da empresa acordante ao recolhimento do tributo que possibilitou a concretização da avença.

Não são raros os exemplos em que os acordos firmados por outras unidades da Federação redundaram em total benefício ao Erário e à população, ante o aumento do fluxo de bens e serviços, com a consequente melhoria financeira de toda a região onde o ajuste foi firmado.

Por outro lado, não se pode relegar o fato de que algumas das empresas firmatárias do acordo aqui se instalaram em razão, justamente, das benesses tributárias, não se apresentando correto agora, sem provas contundentes, proceder à anulação do ajuste. Ora, os interesses tutelados não podem ficar à mercê de simplória ótica formalista, despida da necessária lógica do razoável.

Na minha ótica, e a despeito de ser louvável a atuação do Ministério Público em zelar pela ordem econômica e tributária, tenho que se parte da premissa equivocada de que o recolhimento diferenciado do ICMS devido pelas empresas atacadistas redundou em prejuízo para os cofres públicos.

Ora, é sabido que, até bem pouco tempo, o pólo industrial no Distrito Federal era inexpressivo, de modo que várias foram as empresas atacadistas para cá atraídas pelos incentivos fiscais. Sob esse prisma, me parece mais razoável crer num possível aumento de receita, justamente em razão das novas empresas que aqui passaram a exercer suas atividades, do que num propalado prejuízo decorrente da não arrecadação de empresas que sequer atuavam no Distrito Federal.

E, ainda que se entendesse pela ocorrência de prejuízo, como pretende o autor, não se teria como determinar a devolução de qualquer valor referente a eventual diferença entre o regime especial de apuração do ICMS e a forma de apuração normal do tributo, em homenagem ao princípio da segurança.

Não se pode olvidar que a empresa celebrou o referido termo de acordo com base em legislação distrital presumidamente constitucional (Lei nº 2.381/99).

E, ainda que a Lei nº 4.100/2008 tenha extinguido o regime de apuração de ICMS introduzido por intermédio da Lei nº 2.381/99, não se tem como desprezar os efeitos decorrentes dos atos praticados sob o império da legislação anterior, em consideração ao ato jurídico perfeito.

Aliás, – e aqui peço vênia para lançar mão da analogia – se estivesse julgando ação direta de inconstitucionalidade no Conselho Especial sustentaria a necessidade de aplicação do art. 27 da Lei 9.868/99, modulando-se os efeitos de eventual declaração de inconstitucionalidade, tendo em vista razões de segurança jurídica.

Assim sendo, não logrando o autor comprovar o fato constitutivo de seu direito, qual seja, o prejuízo advindo do termo de acordo em comento, a improcedência dos pedidos é medida imperativa.

Com essas considerações, rejeito a preliminar de ilegitimidade passiva e, no mérito, Nego provimento ao recurso, julgando improcedentes os pedidos formulados na presente ação civil pública.

É o meu voto.

A senhora Desembargadora FORMDROPDOWN – FORMDROPDOWN

Conheço do recurso, uma vez que presentes os requisitos de admissibilidade.

Cuida-se de Ação Civil Pública proposta pelo Ministério Público do Distrito Federal e Territórios em desfavor do Distrito Federal e de “JOSECAR DISTRIBUIDORA DE AUTO PEÇAS LTDA.”, por meio da qual requereu a declaração de nulidade do Termo de Acordo de Regime Especial - TARE.

O MM. Juiz a quo extinguiu o feito, em razão da da ilegitimidade ativa do Ministério Público.

Inconformado, o Ministério Público hostilizou a r. sentença monocrática, sustentando, em síntese, sua legitimidade ativa ad causam. Pugnou pela reforma da r. sentença, para que, uma vez afastada a preliminar de sua ilegitimidade, seja julgada procedente a pretensão deduzida na presente ação civil pública.

Da Preliminar de Ilegimidade Ativa do Ministério Público

Conquanto o colendo Superior Tribunal de Justiça tenha se pronunciado acerca da ilegitimidade do Ministério Público para o ajuizamento de ações civis públicas com o objetivo de desconstituir benefícios de natureza tributária concedidos pelo Distrito Federal, meu posicionamento converge para o entendimento firmado pelo Supremo Tribunal Federal, no sentido de que o Parquet detém legitimidade para propor as referidas ações, consoante se extrai do aresto a seguir transcrito, verbis:

“AÇÃO CIVIL PÚBLICA. LEGITIMIDADE ATIVA. MINISTÉRIO PÚBLICO DO DISTRITO FEDERAL E TERRITÓRIOS. TERMO DE ACORDO DE REGIME ESPECIAL - TARE. POSSÍVEL LESÃO AO PATRIMÔNIO PÚBLICO. LIMITAÇÃO À ATUAÇÃO DO PARQUET. INADMISSIBILIDADE. AFRONTA AO ART. 129, III, DA CF. REPERCUSÃO GERAL RECONHECIDA. RECURSO EXTRAORDINÁRIO PROVIDO. I. O TARE não diz respeito apenas a interesses individuais, mas alcança interesses metaindividuais, pois o ajuste pode, em tese, ser lesivo ao patrimônio público. II. A Constituição Federal estabeleceu, no art. 129, III, que é função institucional do Ministério Público, dentre outras, “promover o inquérito e a ação civil pública, para a proteção do patrimônio público e social, do meio ambiente e de outros interesses difusos e coletivos”. Precedentes. III. O Parquet tem legitimidade para propor ação civil pública com o objetivo de anular Termo de Acordo de Regime Especial - TARE, em face da legitimação ad causam que o texto constitucional lhe confere para defender o erário. IV. Não se aplica à hipótese o parágrafo único do artigo 1º da Lei 7.347/1985. V. Recurso extraordinário provido para que o TJ/DF decida a questão de fundo proposta na ação civil pública conforme entender.”(RE 576155. REL. MIN. RICARDO LEWANDOWSKI. DATA DE PUBLICAÇÃO DJE 25/11/2010 - ATA Nº 51/2010. DJE nº 226, divulgado em 24/11/2010).

Tenho, portanto, que o Ministério Público é parte legítima para o ajuizamento da presente ação civil pública, razão pela rejeito a preliminar de ilegitimidade ativa.

Do Mérito

Quanto ao mérito, considerando que a matéria é recorrente nesta Corte de Justiça e, ainda, tendo em vista que se trata de causa em condições de julgamento, impõe-se aplicar a regra inserta no art. 515, § 3º, do Código de Processo Civil.

Nesse passo, cumpre assinalar que a pretensão deduzida pelo Ministério Público merece prosperar.

O cerne da discussão trazida a julgamento cinge-se à possibilidade ou não da instituição do Termo de Acordo de Regime Especial – TARE firmado entre o Distrito Federal e a empresa ré.

Não se trata de analisar se a atração de empresas sediadas em outras localidades, por meio do TARE, promoveu ou não um maior crescimento econômico para o Distrito Federal. O que se deve perquirir é quanto à legalidade da forma com que o ente federativo tornou possível este incentivo.

Com efeito, os acordos entabulados entre o Distrito Federal e empresas contribuintes, sob o regime do TARE, apresentam um vício de ordem formal que obsta sua celebração.

De fato, a forma de apuração do ICMS promovida por meio do TARE constitui, sim, um incentivo fiscal, até porque se não houvesse esse incentivo ou benefício de natureza fiscal certamente não haveria a predisposição das empresas optantes por essa forma de apuração do ICMS de se instarem no Distrito Federal.

O incentivo fiscal se caracteriza como sendo uma vantagem que, necessariamente deve ser instituída por lei complementar, consoante dicção da Constituição Federal que prevê, em seu art. 155, § 2º, inciso XII, alínea g, que somente por lei complementar é possível a concessão de benefícios referentes ao ICMS, desde que haja entre os Estados e o Distrito Federal deliberação a respeito.

Peço vênia para transcrever o dispositivo constitucional supramencionado, ad litteris:

“XII - cabe à lei complementar:

g) regular a forma como, mediante deliberação dos Estados e do Distrito Federal, isenções, incentivos e benefícios fiscais serão concedidos e revogados.”

Está, pois, delimitado o conteúdo normativo da lei complementar acerca de incentivos fiscais que envolvem o ICMS. Vale dizer, a Carta Magna estabelece que somente por lei complementar é possível estabelecer um regime especial que se caracterize como incentivo fiscal, nos moldes propostos pelo TARE, isto após prévia deliberação entre os entes federados envolvidos.

A Lei Orgânica do Distrito Federal também dispõe que a concessão de incentivos fiscais somente poderá ocorrer por lei complementar, consoante se vê de seu art. 135, in verbis:

“Art. 135. O Distrito Federal fixará as alíquotas do imposto de que trata o artigo anterior para as operações internas, observado o seguinte:

§ 5º Observar-se-á a lei complementar federal para:

VII - regular a forma como, mediante deliberação dos Estados e do Distrito Federal, isenções, incentivos e benefícios fiscais serão concedidos e revogados.

§ 6º As deliberações tomadas nos termos do § 5º, VII, no tocante a convênios de natureza autorizativa, serão estabelecidas sob condições determinadas de limites de prazo e valor e somente produzirão efeito no Distrito Federal após sua homologação pela Câmara Legislativa.”

Tem-se, pois, que somente por lei complementar tornar-se-ia possível conceder o incentivo fiscal pretendido pelo Distrito Federal, dês que houvesse autorização por meio de convênio entre os entes federativos, nos exatos termos da Lei Complementar n. 24/75. Confira-se:

“Art. 1.º As isenções do imposto sobre operações relativas à circulação de mercadorias serão concedidas ou revogadas nos termos de convênios celebrados e ratificados pelos Estados e pelo Distrito Federal, segundo esta lei.

Parágrafo único - O disposto neste artigo também se aplica: III - à concessão de crédito presumido;

IV - à quaisquer outros incentivos ou favores fiscais ou financeiros-​fiscais, concedidos com base no Imposto de Circulação de Mercadorias, dos quais resulte redução ou eliminação, direta ou indireta , do respectivo ônus.”(grifei).

Delineado o arcabouço legal sobre o tema, é de se dessumir que a instituição do TARE n. 15/2004 padece de ilegalidade. A valer, a Lei Distrital n 2.381/99 não poderia facultar ao contribuinte a opção de abater percentual fixo de ICMS, cobrado nas operações e prestações anteriores, realizando o ajuste do valor devido com base na escrituração regular somente ao final do período.

Por certo que a apuração do ICMS, na forma proposta pelo TARE, constitui um benefício que prejudica os demais entes federados, uma vez que há concessão de crédito presumido à empresa ré, sem que tenha sido estabelecido convênio entre o Distrito Federal e os demais Estados.

Sobre o tema, trago à colação o entendimento desta egrégia Corte de Justiça, ao analisar caso semelhante, in verbis:

“CONSTITUCIONAL E PROCESSO CIVIL. AÇÃO CIVIL PÚBLICA. ULTIMADO O JULGAMENTO DA CAUSA QUANTO AO MÉRITO. TERMO DE ACORDO DE REGIME ESPECIAL. TARE. AFRONTA. PACTO FEDERATIVO. CONVÊNIO INTERESTADUAL. AUSÊNCIA. RECURSOS DE APELAÇÃO E REMESSA OFICIAL DESPROVIDOS. O Termo de Acordo de Regime Especial, sob a ótica constitucional, afronta o pacto federativo e as disposições que determinam a realização de prévios convênios entre os Estados e o Distrito Federal. Apelo provido.” (20040111153339APC, Relator LÉCIO RESENDE, 1ª Turma Cível, julgado em 28/10/2010, DJ 09/11/2010 p. 97);

*************************

“AÇÃO CIVIL PÚBLICA. MINISTÉRIO PÚBLICO. DEFESA DO PATRIMÔNIO PÚBLICO. LEGITIMIDADE. INADEQUAÇÃO DA VIA ELEITA. TERMO DE ACORDO DE REGIME ESPECIAL (TARE). ILEGALIDADE. 1 - O Ministério Público é parte legítima para intentar ação civil pública em defesa do patrimônio público (CF, art. 129, III), conforme decidido pelo c. STF (RE 576.155/DF). 2 - Admite-se, em sede de ação civil pública, como simples prejudicial da postulação principal, declaração incidente de inconstitucionalidade, sobretudo se a inconstitucionalidade apenas constitui causa de pedir. 3 - Com o chamado termo de acordo de regime especial - "Tare" - firmado pelo Distrito Federal, instituiu-se benefício fiscal e concedeu-se crédito presumido do ICMS, sem prévio convênio interestadual, exigido pela LC 24/75, além de criar novas alíquotas do ICMS, o que contraria o disposto no art. 155, § 2o, inciso V, a e b, da CF, segundo o qual compete ao Senado Federal, por resolução, estabelecer ou fixar as alíquotas do ICMS. 4 - Apelações não providas.” (20100110144234APC, Relator JAIR SOARES, 6ª Turma Cível, julgado em 27/10/2010, DJ 04/11/2010 p. 223).

A propósito, o Excelso Pretório posicionou-se pela inconstitucionalidade do TARE, consoante se extrai do aresto abaixo transcrito, in verbis:

“Ação Cível Originária. 2. Estados de São Paulo e Bahia. Termo de Acordo de Regime Especial no 01/98, celebrado entre o Distrito Federal e empresa particular. 3. Possibilidade de desconstituição dos efeitos de acordo ou convênio administrativo após o término da vigência. Inocorrência de prejudicialidade. 4. Ação prejudicada, apenas, no período entre 1o.07.99 e 31.07.99, por celebração do TARE no 44/99, dispondo sobre o mesmo objeto. 5. Vício formal. Acordo firmado em desobediência à forma estabelecida na Lei Complementar no 24/75. Fixação de alíquota de ICMS diversa da fixada na Resolução no 22, do Senado Federal. 6. Passagem ficta de mercadorias. Inocorrência de fato gerador. Prejuízo na incidência do ICMS aos Estados requerentes. Violação do pacto federativo e princípios tributários. 7. Ação Cível Originária julgada procedente.” (ACO 541/DF. Relator Min. GILMAR MENDES. Órgão Julgador: Tribunal Pleno. DJ 30-06-2006 PP-00006).

Ao fundamentar o voto condutor do acórdão acima transcrito, sua Excelência, o Min. Gilmar Mendes bem destacou, verbis:

“Procedem, pois, as alegações dos Estados requerentes quanto à exigência de convênio, a ser celebrado entre os Estados da Federação, para a concessão de isenções, benefícios e incentivos, em tema de ICMS. O Supremo Tribunal Federal, repetidamente, tem se manifestado contra a concessão de benefícios e isenções concedidos por certos Estados em prejuízo de outros membros da Federação, quando não autorizados por convênios interestaduais, como demonstra a decisão proferida na ADIN no 1.247, relator o eminente Ministro Celso de Mello (...)”.

Ao concluir seu voto Sua Excelência reconhece que o TARE não foi celebrado segundo o que estabelece a Lei Complementar no 24/75, bem assim que restou violado o pacto federativo.

Deveras, não poderia o Distrito Federal estabelecer um benefício fiscal em detrimento das demais unidades federadas sem celebrar convênio, conforme determina a Lei Complementar 24/75.

Pelo exposto, rejeito a preliminar de ilegitimidade ativa do Ministério Público, ao tempo em que dou provimento à apelação por ele interposta, para reformar a r. sentença monocrática, julgando procedente a pretensão deduzida na Ação Civil Pública.

É como voto.

O senhor Desembargador FORMDROPDOWN – FORMDROPDOWN

Com a Revisora.

D E C I S Ã O

FORMDROPDOWN FORMDROPDOWN FORMDROPDOWN . Redigirá o acórdão a Revisora.

Disponível em: https://tj-df.jusbrasil.com.br/jurisprudencia/902234978/20060110445799-df-0044579-5420068070001/inteiro-teor-902235228